sábado, 15 de maio de 2010

No rumo da pobreza nordestina – uma profecia cumprida?

A beleza remanescente de Belém

A beleza de Belém continua a existir, porém, muito mais misturada com a pobreza. Em alguns momentos eu chego a imaginar que estou numa cidade do Nordeste, uma região que já foi muito rica como esta; e eu temo que dentro de 20 ou 30 anos o Norte se torne um Nordeste...” (Maria José de Araújo Lima, em declaração feita em Belém em março de 1993).

Faltam ainda três anos para o primeiro prazo dado pela professora Maria José de Araújo Lima, da Universidade Rural de Pernambuco, pesquisadora e consultora do Banco Mundial. Andamos depressa e já chegamos lá antes do tempo?
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Em março de 1993 entrevistei a professora pernambucana Maria José de Araújo Lima, aqui em Belém, texto que foi publicado no Liberal. Estudiosa das questões ambientais que ela associa às questões sociais, como a pobreza, a desigualdade e a exclusão (ao contrário de não poucos ecologistas que dissociam o meio ambiente do meio social, histórico, econômico e cultural. E não são poucos!).

Então coordenadora geral do Instituto de Ecologia Humana, de Recife (PE), ela esteve em Belém há poucos dias, cinco anos depois da última visita à cidade. Suas impressões foram pouco alentadoras:

“De 1988 para cá eu senti Belém muito diferente, uma cidade bem mais pobre; na primeira visita eu senti muita beleza aqui, a beleza que continua a existir, porém, muito mais misturada com a pobreza e, em alguns momentos, eu chego a imaginar que estou numa cidade do Nordeste, uma região que já foi muito rica como esta; e eu temo que dentro de 20 ou 30 anos o Norte se torne um Nordeste”.

Para a professora Maria José, uma das mais respeitadas especialistas em assuntos ambientais, no Brasil e no exterior, ao lado desse empobrecimento que ela identifica em Belém está a visível concentração de riqueza, “uma concentração que salta aos olhos, a partir da fisionomia da cidade e da fisionomia das pessoas”. E esse distanciamento entre ricos e pobres, não apenas em Belém, mas na Amazônia toda, está na raiz dos problemas ambientais da região, com o povo assistindo, sem opinar, às transformações que lhe são impostas, diz ela.

Belém é uma cidade que estaria fugindo de si mesma, opina a cientista pernambucana, chamando a atenção para o “paredão” que impede a ventilação e a visão da baía e do rio. “Existe um discurso da modernidade, mas que modernidade é essa? Será o escoamento dos recursos naturais, a exclusão da maioria das pessoas do direito de morar, que modernidade é essa?

“Vocês têm aqui um rio, a baía, e eu custei a ver o rio, porque ele está escondido por uma parede de casas de comércio de madeira. Um rio que poderia servir à população de diversas maneiras, como fonte de renda, de lazer, mas ele está inacessível. É muito difícil até fazer uma breve excursão. É como se esse rio não estivesse dentro de Belém, fosse um corpo à parte, excluído como coisa bela e útil”.

E a solução para esse divórcio entre a população e seu ambiente? “Eu só vejo uma saída, que é trabalhar a organização do povo, um intenso trabalho de construção da cidadania, de conscientização do povo sobre seus direitos e deveres”.

A professora relata um detalhe do hotel onde ficou hospedada aqui: ela só conseguiu suco e doce de cupuaçu três dias depois de insistentes pedidos. Só havia suco de acerola, uma fruta importada e cultivada para exportar para o Japão, diz.


Nesta foto, a feiúra da pobreza na Feira do Porto da Palha, hoje de manhã, sábado, 15 de maio


Nordeste da Amazônia

Maria José indaga: “Por que tentar adaptar aqui a acerola e não fazer campos experimentais de cupuaçu, de açaí e do sem-número de frutas deliciosas de que o Pará é tão rico? São dádivas da floresta que o sistema econômico ainda não se preocupou em internalizar em seu processo de produção, e isso revela muito bem a distância que as pessoas têm da compreensão da questão ambiental”.

Para a coordenadora do Instituto de Ecologia Humana “a questão ambiental não significa, por exemplo, preservar o verde por preservar. Passa pela compreensão do papel do cidadão na construção do ambiente”.

“O Nordeste empobreceu assim, e a Amazônia está no caminho, e com muito mais força, porque a Amazônia é muito mais rica em recursos naturais, por aqui há de tudo que se possa imaginar, recursos renováveis e não renováveis estão aqui e os olhos do mundo todo se voltam para cá justamente porque aqui é o celeiro básico da riqueza do Primeiro Mundo”.

A professora identifica no “falso discurso da modernidade” a tentativa de homogeneizar o Brasil “para acabar com a diversidade, pois é muito mais fácil explorar uma coisa homogênea que uma diversificada; portanto, quanto mais homogêneo for o Brasil, mais fácil será pôr as mãos nos seus recursos naturais”.

No Nordeste, conta ela, estão adaptando a algaroba para forragem, “quando a caatinga nordestina é rica em plantas nativas que podem alimentar animais. Na Amazônia, isso será ainda mais catastrófico, dada a imensidão de riquezas oferecidas pela floresta”. A professora Maria José não hesita em afirmar que está em curso um verdadeiro processo de “aculturação do povo”. Diz ela que “não só os índios são aculturados; nós começamos a esquecer as coisas que temos, esquecer as nossas raízes e começamos a esquecer o nosso lugar, a nossa origem, a nossa cidade, o nosso país. E assim fica fácil a que outros levem tudo, pois estamos esquecidos das riquezas que temos e até da nossa própria cultura”.

Post Scriptum: No momento em que fiz essa entrevista (1993), a professora Maria José tinha o seguinte currículo resumido:

Doutora pela USP, bióloga por formação, possuindo todos os demais títulos acadêmicos conferidos por instituições de altos estudos da Alemanha e Espanha, onde tem um livro publicado e não traduzido para o Português.

No Brasil, seu livro “Ecologia Humana”, editado pela Vozes, em 1984, é uma das mais importantes referências para os estudos ambientais. Na Europa, fez cursos de pós-graduação em Educação, Ordenamento do Território, Geografia e Ecologia Humana, o que lhe rendeu uma vasta “titularia acadêmica”.

Na Universidade Rural, em Recife, ela coordena uma equipe formada por uma médica, uma arquiteta, uma bióloga e um agrônomo, que, nas constantes ausências da titular, não deixam os alunos sem aula.

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