No dia dedicado aos Povos Originários da América, ainda oficializado como "das Raças Indígenas", começo com uma experiência pessoal.
No meado dos anos 1990 eu passei um dia na reserva dos Waiãpi, no norte do Amapá. Vi ali um povo alegre e em crescimento, muitos jovens de aspecto saudável, muitas meninas gestantes, como se estivessem desenvolvendo um programa de recuperação numérica. E estavam. Nos anos 1970, acossados por garimpeiros, o povo Waiãpi do lado brasileiro (pois há deles também na Guiana Francesa, do outro lado do Rio Oiapoque) quase chegaram à extinção. A varíola transmitida por garimpeiros quase os destruiu por completo, chegando a menos de 100 indivíduos.
| No dizer de João Lúcio d'Azevedo, alcateia de feras investem contra povos dóceis e desarmados, movidos pela ganância do ouro e do poder. Ontem, como hoje (Imagem: veja.abril.com.br). |
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| Esperança de um novo tempo? (kids.britannica.com) |
Lembro bem do Kumaré, de 30 anos naquele momento, que era uma espécie de embaixador do povo Waiãpi, falava bem o Português, viajava regulamente a Macapá para fazer compras e tratar de assuntos de seu povo. Levou-me até a sua casa onde conheci a sua mulher e dois filhos pequenos. Perguntei a Kumaré: Já estiveste em Belém? Ele respondeu: Já fui lá duas vezes levar parentes doentes, no avião da Funai. Fiz nova pergunta: Tens vontade de voltar lá? A resposta dele: Não. Pergunto de novo: Por que? Resposta: Porque lá em Belém faz muito barulho e fede.
Não podia ser diferente. A reserva daqueles remanescentes dos povos originários era, espero que ainda o seja, um pedaço do paraíso terrestre. Árvores altíssimas, clima ameno do meio da floresta, rios de águas cristalinas, peixes sem fim, roçados enormes de bananas e cultivo de várias espécies de mandioca e macaxeira. Aqueles narizes e aqueles ouvidos só podiam sentir a agressão civilizada de tudo que existe, ao contrário, nas nossas cidades poluídas e sujas, barulhentas e incivilizadas. Kumaré tinha plena razão.
Por curiosidade, perguntei a ele o significado de seu nome: ele me respondeu que o seu nome significava "aquele que nada rápido". Fiquei pensando que os índios sabem, inclusive, o sentido de seus nomes. Nós, "civilizados", sabemos o que significa Manuel, João, Francisco? E pior, Maicon, Michelly, Evellyn e toda sorte de nomes estrangeiros mal compreendidos e grafados de modo errado, nomes não brasileiros? Onde está a cultura, entre os Waiãpi ou entre nós, os civilizados?
A jornalista Elaine Tavares escreveu recentemente no site Povos Originários de Nuestra América um interessante artigo que começa assim: "As comunidades indígenas do Brasil estão em processo de crescimento. Desde 1991, segundo mostraram os dados do IBGE, o aumento da população foi de 205%. Hoje, o Brasil já contabiliza 896,9 mil índios de 305 etnias, e em quase todos os municípios (80%) tem alguma pessoa autodeclarada indígena.
Até mesmo alguns grupos já considerados extintos, como os Charrua, se levantam, se juntam, retomam suas raízes, formam associações e lutam por território. Isso significa que a luta que vem incendiando a América Latina desde o início dos anos 90 já chegou por aqui (Leia o artigo completo aqui).
Há um século, o excelente historiador português, João Lúcio d'Azevedo, que residiu em Belém por algum tempo, por volta de 1905, assim escreveu de seus compatriotas do passado, os colonizadores:
"Tétricas figuras são as destes herois do Novo Mundo, quando nos aparecem espalhando o terror entre as populações dóceis e inermes ... Como alcateia de feras, assolando os bosques, nunca esses aventureiros se viam fartos de sangue, e de ouro e poder tinham sede insaciável".
Quando se lê isso, escrito lá distante no tempo, e assistimos, no Congresso Nacional dos Brancos, em Brasília, a luta do agronegócio para avançar ainda mais sobre o que resta das terras indígenas, a impressão que fica é que a luta dos povos originários ainda será longa. E precisa da solidariedade da sociedade envolvente, de brancos, negros, morenos, de todas as cores. Mas atenção: solidariedade, apenas. Não tutela. Disso os índios já estão fartos, seja da tutela e da "ajuda" de religiosos, governos, ONGs, grupos estrangeiros e nacionais e ....
Mas eles estão chegando lá. Com atos e palavras começam uma vitoriosa reconstrução de sua história, como foi demonstrado há pouco no Congresso, na capital dos brasileiros.
A poesia de Marlene da Conceição de Sousa pode mostrar a permanência de um passado que resiste, mas que, querendo ou não, está cedendo não por qualquer outro sentimento que não seja a pressão, fruto de uma luta que tem que diuturna.
ÍNDIOS
Era uma vez na América, índios.
A cultura do caçar, do plantar e do pescar.
Lendas, mitos e costumes,
Gente de bem, mas que teve que guerrear.
Era uma vez a natureza em perfeita harmonia.
Salvaguardada por esses heróis, desequilíbrio, não existia!
Mas estes foram expulsos de suas terras
Obrigados a dar lugar à ganância e à insatisfação,
Dos “homens brancos” que aqui chegaram
Para disseminar a destruição.
Agredindo, perseguindo e matando,
Era uma vez nossos irmãos.
E uma Pátria que nunca será a mesma.
Ilusão!de Marlene da Conceição de SousaIbiassucê - BA - por correio eletrônico






